LAÉRCIO MIRANDA DE SOARES: ESTOQUE FARTO E VARIADO PARA ATENDER UM MERCADO EXIGENTE

Por Marcos Lock

De Caratinga, em Minas Gerais, até Arenápolis, ele veio com os pais. Era ainda um menino e não tomava as próprias decisões. Já de Arenápolis para Vila de Rondônia a decisão foi própria, afinal já contava 22 anos. Foi assim, com as mãos no volante de um caminhão Chevrolet 1965, com oito burros na carroceria, que Laércio Soares de Miranda, o atual proprietário e diretor da Cerâmic Belém, partiu sozinho para um estado que não conhecia. Dois dias depois, após uma viagem sem incidentes, ele já andava pelas ruas de Vila de Rondônia, atraído que foi pela proposta de gerenciar uma pequena olaria, qu acabou fechando alguns meses depois. Tentou trabalhar em outra empres, mas o emprego também não vingou e a situação se agravou quando o pouco dinheiro de que dispunha acabou no curto espaço de dois meses.

IMAGEM DA BR-364, EM FRENTE AO COLÉGIO MARECHAL RONDON, EM 1979, ANO QUE NASCEU A CERÂMICA BELÉM. Foto: B.Bertagna

Vila de Rondônia não contava com telefone público que permitisse contato com a família em Mato Grosso. Sem nenhum dinheiro no bolso, Laércio teve de improvisar. Passou a dormir em uma choupana de palha de coqueiro, onde hoje fica o bairro Casa Preta e as refeições diárias (almoço, merenda e jantar) foram, muitas vezes, um simples arroz com pimenta, sem nenhum feijão.

A situação estava mesmo difícil, até que recebeu um chamado da Cerâmica Vera Cruz. Lá permaneceu por nove anos e o espírito empreendedor já se fazia notar. Juntando as economias, com persistência e disciplina, construiu neste período duas casas, adquiriu uma chácara de 10 alqueires, um jipe velho e ainda dois caminhões do tipo “boca de sapo’. Foi o que permitiu, em 1974, trazer a família para Ji-Paraná: o pai, Thelesforo Fernandes de Miranda, a mãe, Maria Soares de Miranda, e mais onze irmãos para Ji-Paraná.

ELE  USOU  ESTE  PEQUENO patrimônio para, com mais dois sócios, comprar em 1981 a Cerâmica Belém. “Eu tinha 25%, outro tinha 25% e um terceiro tinha 50%. Depois, em 1984, acabei comprando tudo e fiquei dono sozinho”, revela o empresário. De dia ele permanecia na Vera Cruz e toda noite rumava para sua nova empresa, onde queimava tijolos, enfornava, desenfornava e depois queimava os tijolos para então vendê-los.

COMEMORAÇÃO DE 7 DE SETEMBRO, EM 1979, NA VILA DE RONDÔNIA, NO LOCAL ONDE HOJE É O GINÁSIO GERIVALDÃO. Foto : Beto Bertagna

Laércio lembra com bom humor da cama de apenas 30 centímetros de madeira, onde deitava ao lado do forno com um travesseiro de tijolo de barro cru para fica mais “macio”. “Aí eu afundava a cabeça no tijolo para ele adquirir o formato e dava pra descansar bem. Mas tinha de ficar de olho a noite inteira para o fogo ficar queimando os tijolos”, lembra com nostalgia.

Foi assim durante um ano, porém, os negócios também não progrediram como ele planejara e Laércio decidiu trabalhar no garimpo de cassiterita, em Ariquemes onde permaneceu de 1987 a 1989.

As duas malárias contraídas lá, que se repetiram mais de 70 vezes, não o desanimaram e ele, recuperado financeiramente, voltou para Ji-Paraná, reativou a Vera Cruz, reassumiu a Cerâmica Belém e ainda adquiriu outra cerâmica, em Presidente Médici.

OS  NEGÓCIOS  AGORA iam melhor até que, em 1986, com a implantação do Plano Cruzado, quase foi a falência com as empresas. No entanto, movido de grande determinação reequilibrou-se e resgatou a saúde financeira das mesmas. Porém, apesar dos negócios desenvolvidos ele ainda carregava uma frustração: aos 48 anos ele ainda não sabia ler bem. Decidido a sanar este problema contratou um professor particular de português e com o auxílio da esposa logo dominou o alfabeto e adquiriu o grau da leitura. Com as aulas do Telecurso 2000 que assistia pela televisão, em casa e na empresa, seguiu adiante e conseguiu concluir o ensino fundamental e médio em pouco tempo. Pensou em dar sequência fazendo a faculdade de Direito, mas este plano resolver adiar por ora.

A CARTEIRA DE ESTUDANTES DE LAÉRCIO MIRANDA,AO RETOMAR OS ESTUDOS DO 1º GRAU

Em quatro décadas, Laércio viu seu negócio progredir e consolidar-se. Neste período casou-se duas vezes e tornou-se pai de cinco filhos, avô de quatro netos e até bisavô. Hoje, aos 68 anos, orgulha-se de ter feito uma grande empresa, cujo parque de máquinas compõe uma das melhores estruturas fabris de Rondônia.

Também ele se regozija do seu jeito de “sempre correr atrás”. É o que o motiva a viajar com frequência em busca de novidades em eventos do segmento de cerâmica. Este ano, por exemplo, esteve em dois deles em agosto: a feira de energia solar Intersolar South America, na capital paulista; e a feira da Associação Nacional dos Fabricantes de Máquinas e Equipamentos para a Indústria Cerâmica (Anfamec), que aconteceu em Campinas, estado de São Paulo.

É  DA  ÉPOCA  DE  ‘vacas magras’ que conserva a espontaneidade da boa amizade, do respeito às pessoas e de hábitos curiosos como não usar cartão de crédito. Tudo o que faz é somente na operação de débito, para não perder o bom e velho costume de pagar tudo à vista.

Laércio resumiu em apenas quatro itens, a receita do seu sucesso: honestidade, bom atendimento, qualidade do produto e compromisso com os clientes. Para o seu braço direito na empresa, o gerente administrativo Adeilson de Andrade, é preciso acrescentar pela menos mais uma qualidade: o caráter inovador.

O filho Laércio Guimarães Miranda, o “Laercinho”, à frente da loja Santiago Materiais de Construção, que funciona vizinha à atual sede da Cerâmica Belém, no km 5 do Primeiro Distrito de Ji-Paraná, destaca outras qualidades do pai: tratar os funcionários como igualdade, pagá-los sempre em dia e, acima de tudo, evitar contrair dívidas.

A seguir, algumas amostras de formatos inusitados de produtos, que demonstram o caráter inovador da Cerâmica Belém:

 

A CERÊMICA BELÉM INOVOU COM AS CERÊMICAS ARREDONDADAS, MUITO PROCURADAS PARA DECORAÇÃO DE AMBIENTES INTERNOS

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