Saudade ou saudades; lembrança ou lembranças. Agora segue a explicação

0
73

Nas andanças do dia a dia nos deparamos como muitas situações corriqueiras que envolvem certas palavras ou expressões. Algumas são empregadas somente no plural, condição que foram adquirindo com o tempo e dando extinção, quase completamente, à forma singular. É o caso de “saudade” e “saudades”; “felicidade” e felicidades”; “lembrança” e “lembranças”.

Alguns tradicionalistas da língua têm restrições à sua flexão baseando-se num único argumento: elas exprimem uma “noção abstrata” e, como tal, não seriam numeráveis.  

Podem até ter razão como estudiosos da língua, mas levando-se em conta que o idioma é um organismo vivo, é preciso entender que ele vai mudando à medida em que é falado todos os dias pelas pessoas. Em seu “Dicionário de Questões Vernáculas”, Napoleão Mendes de Almeida observou que ocorre com “saudade” o mesmo que se deu com “parabém” e “pêsame”, palavras cujo singular caiu em desuso e que hoje só existem no plural.

A regra de não levar flexionar substantivos que exprimem “noções abstratas”, se pensarmos bem, é inaplicável porque se assim fosse não poderíamos dizer: as liberdades civis; ou os amores da juventude, exemplifica Napoleão.

Não é difícil perceber que saudades podem sim ser enumeradas: saudades de você, saudades das crianças, saudades dos nossos passeios dominicais, da infância, saudades da comida da vovó etc.


Essa expansão do sentido nuclear das palavras que se dá por metonímia é tão comum — e incontrolável — que tende a passar despercebida. Foi o que ocorreu com os já citados “pêsames” e “parabéns” e é o que acontece também na frase: estou mandando lembranças.  

Devemos aceitar, portanto, que o plural, afinal, encerra uma ideia de mais elegância, intensidade e importância ao sentimento, porque trata-se de algo atribuído a mais de uma pessoa. Não por acaso os políticos usam o mesmo artifício, quando, por exemplo, dizem empregam frequentemente o plural em discursos: “Nossa preocupação é com as classes menos favorecidas”; “Os brasileiros estão cansados deste desmando” ou ainda “A corrupção é um flagelo que pune os mais pobres e os cidadãos de bem”.

(*) Marcos Lock é jornalista profissional com licenciatura em Letras/Português pela Universidade Federal de Rondônia

Se você tem alguma dúvida pode encaminhar para o whatsapp 9.9328-1521 ou pelo e-mail colunapontoevirgula@gmail.com, que procuraremos responder com o maior prazer   



CURTA/SIGA/ACOMPANHE-NOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here