Professor analisa a ‘pegadinha’ do tema da redação do Enem

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O tema da redação do Enem deste ano — “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”— não foi exatamente uma surpresa. O jornalista e professor de português, Marcos Lock, de Ji-`Paraná, analisa que o tema até era esperado, porém não com este recorte solicitado, o que solicitou uma reflexão sobre a manipulação empresarial pelas informações que interferem no comportamento das pessoas em sites de informações, buscas, de compras e em outras situações.

O PROFESSOR MARCOS LOCK

O tema da redação fugiu da temática das últimas edições, deixando de lado abordagens sociais ligadas a direitos humanos e minorias, para tratar de algo bem atual, tecnológico e que é muito presente na vida da esmagadora maioria da população adulta.

A prova teve quatro textos motivadores, sendo que três deles são trechos de reportagens e um trouxe um gráfico com dados. Duas das três reportagens citavam diretamente os algoritmos e foram publicados em 2016. Um deles, “O gosto na era do algoritmo”, foi publicado em 2016 pelo jornal “El País” e escrito pelo jornalista Daniel Verdú.

O outro texto, chamado “A silenciosa ditadura do algoritmo”, é de autoria do jornalista brasileiro Pepe Escobar. A terceira matéria, também de 2016, foi publicada pela BBC Future. De autoria de Tom Chatfield, o texto chama “Como a internet influencia secretamente nossas escolhas”. 

“Era previsível, de certa forma, a abordagem deste assunto, que esteve na mídia durante todo o tempo e impacta a vida de tanta gente. As redes sociais e as fake news são uma face importante desta problemática. O que pegou um pouco foi que o candidato precisou focar na questão do controle de dados”, afirma o jornalista e professor de português de Ji-Paraná, Marcos Lock.

Para ele o tema não tem relação direta com as notícias falsas, mas sim com a manipulação das informações e foi menos específico do que o do ano passado, porém mais abrangente, exigindo mais capacidade de delimitar o tema.

As questões que envolveram o Google e o Facebook, que vieram à tona recentemente,  a venda de arquivos sigilosos, a lei de proteção de dados pessoais na internet aprovada pelo Congresso brasileiro, em julho, definindo que quem tem os dados é responsável por ele, foram, segundo Lock, alvo de muitas reportagens. “Quem leu um pouco a respeito na mídia teve condição de desenvolver e oferecer uma boa argumentação”, frisa Lock.

A questão dos algorítimos, outra face importante da questão proposta pela redação, não são hoje um terreno somente de especialistas e foram também tratados em muitas entrevistas de televisão e em reportagens.  “Já é possível compreender bem que esta é uma realidade, que permite às empresas saber o quê e a que horas o usuário busca seus dados, o que acaba influenciando na navegação. O Google, por exemplo, por meio do comportamento da pessoa na web, direciona anúncios publicitários de acordo com o histórico e as suas preferências”, complementa o professor.

Ainda segundo Lock, as fake news foram uma das argumentações que puderam ser sido usadas, mas elas, na verdade, são apenas um aspecto da problemática. “A banca do Enem fez, na verdade, uma pegadinha que era preciso ser percebida pelo candidato. O fato maior é que o contexto mundial pede uma profunda reflexão a respeito da informação que circula na internet e dos impactos que a manipulação desses dados têm na sociedade”, frisa.

Como argumentos que podiam ser usados para construção do texto, Lock destaca também o marco civil da internet, que autoriza no Brasil que empresas privadas usem informações dos usuários, desde que com aceitação dos termos de uso. Os vazamentos de informações oficiais do WikiLeaks, por meio do analista de sistemas Edward Snowden, que criou uma crise diplomática entre diferentes países, foram elementos que também puderam ser lembrados no texto.

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