JAIRO ARDULL ESCREVE — SOS Museu Marechal Rondon

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Por Jairo Ardull (*)

Ainda que em algum lugar do futuro esteja a promessa de reforma, a pergunta do presente é como foi possível que o Museu das Comunicações Marechal Rondon chegasse nas condições atuais? Paradoxalmente, a resposta está no passado, na falta de interesse da Fundação Cultural de Ji-Paraná em corrigir problemas que foram se acentuando com os anos. 

Na fachada, a placa de identificação de madeira caiu no chão. E foram anos para que ela se desprendesse dos apoios laterais. E serão mais alguns anos para que ela se perca de vez no tempo, se nada for feito. E o mesmo se pode dizer do telhado, piso e parte da cerca de proteção da varanda, conjunto que dá ao prédio uma aparência triste e desolada.

Por ser contraditório, vale ser mencionado. Realizado em agosto do ano passado, na praça da Linha Telegráfica, a que fica em frente ao museu, mais uma edição do Rondon Rock Festival ajudou a aumentar os estragos. A combinação entre música e patrimônio histórico saiu do tom e nada foi feito ou não pensou para preservar o museu. Resultado: depredação ao bom e velho estilo rock in roll.

O tombamento do prédio pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) anunciado pela FJP chega com alento e reservas. Em se tratando do Iphan, a medida aportar aqui com muitas décadas de atraso e sem garantia que o museu poderá viver dias melhores. Isso porque, após o tombamento, a conservação fica a cargo das administrações locais. 

Uma lei específica não substitui medidas (administrativas ou não) concretas e rotineiras de preservação, como as que deveriam ter sido tomadas antes que o museu chegasse ao ponto em que está. Continuar visitando o Museu das Comunicações Marechal Rondon, mesmo nos dias de hoje, é uma escolha da população. Ainda que o constrangimento e a vergonha não fiquem impressos na folha de presença. 

Caso o Iphan se debruçasse mesmo sobre a causa do museu, vai descobrir que as paredes de adobe conservam muito mais que um prédio próximo ao abandono. Vai entender que o local guarda um patrimônio imaterial de valor histórico incalculável: a conclusão da linha telegráfica de Cândido Mariano Rondon.

Foi ali que em 15 de dezembro de 1914, Rondon reuniu militares e habitantes locais para realizar a cerimônia de inauguração da linha de comunicação por telégrafo que ligou Cuiabá a Santo Antônio do Madeira. Com o apoio do ex-deputado estadual, Leudo Buriti, sugeri que fosse instituído o “Dia da Linha Telegráfica (lei estadual) e passo seguinte foi a nomeação da praça da Linha Telegráfica, a que fica entre o Teatro Dominguinhos e o museu.

Tratava-se de preparar a cidade para o centenário da instalação da linha telegráfica de Rondon, em 2014, com a inauguração de um memorial na praça de mesmo nome. Porém, a administração do ex-prefeito Jesualdo Pires bateu o pé com argumentação de que era mais importante apresentar Ji-Paraná com um município jovem do que torná-lo um núcleo centenário de valorização da memória estadual. A história nunca vai esquecê-lo.

De resto, devemos aguardar as decisões da FJP e do Iphan para reforma do museu, e que ela possa devolver a cor original ao prédio (amarelo e branco), ao contrário dos dois tons de azul da administração municipal. Pessoalmente, vou acompanhar essa reforma para que as placas de inauguração não desapareçam misteriosamente como aconteceu com na Biblioteca Municipal Dr. Ciro Escobar e a Escola de Música Walter Bártolo.  

E até lá vamos amargando a vergonha de ver pessoas que visitam o local e se surpreenderem, não com o acervo, mas com o descaso com a nossa história.

(*) Jairo Ardull é jornalista e escritor



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